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Um Grito Na Noite

Ilustración del relato 'Um Grito Na Noite '“Às vezes estamos mais sozinhos do que poderíamos suportar”

Um grito na noite. Aquela era talvez a ideia mais tola que lhe ocorrera em cada uma das ocasiões em que a sua responsabilidade, no caso a falta dela, viera dar com ele, por assim dizer, com muito
pouco fogo para queimar. Quando fosse amanhã o mais certo é que aquele corpo nu, enrolado no seu corpo suado, não passasse de uma lembrança, toldada pelos efeitos do álcool, que lhe faria duvidar da própria existência, quanto mais de alguém de quem, agora, queria esquecer à força bruta.

Rodou a cabeça em semicírculo, como que verificando da possibilidade mais honrada de se abstrair àquele momento, e encontrou um tímido raio de sol desenhado na parede do fundo. Não pôde deixar de notar que mais abaixo uma pintura barata, semelhante às que costumava admirar na feira semanal da aldeia, pretende imitar um Van Gogh, como se fosse assim tão fácil fingir ser quem se não é.

Certo de si, engoliu a água que lhe começava a fazer da boca um copo meio cheio e tacteou em busca do seu relógio de pulso. Nada. Levantou o braço que descansava sobre o seu peito e fez intenção de prosseguir com outras etapas. Queria o relógio, precisava de saber as horas, nada naquele momento seria mais importante do que saber quando estava.

Um movimento alterado, uma respiração que muda de ritmo e entra num novo ciclo, fazem que a sua aventura em busca do presente se perca por segundos, e a companhia que antes se revelara tão
agradável, desacelere da paixão derivada dos seus movimentos raptados à inércia de uma vontade a rasar o ébrio e o prazer do agora é tirado de um momento de conquista de silêncio.

Com a certeza do seu próprio eu, provavelmente muito mais do que ele alguma vez gostaria de sentir, não fosse a vontade de se tornar forte e aquele desejo de se esconder, quando o amanhã que já ali vinha o obrigasse a inventar um agora que se tornava passou e que ele queria tornar tão foi só isto.

Um grito na noite. O gosto na boca mexe-lhe com os sentidos, agoniado talvez enojado, perde-se entre a certeza da má qualidade do vinho ou simplesmente do sabor que não queria ter provado.
Nada do que fizera naquela noite tocara sequer na sua virilidade. Sentia-a bem ali, sentia-se bem ali e de repente podia elogiar-se voltando a desfazer todos os passos encetados há minutos, trocá-los
por certezas ensaiadas e esquecer aquele gosto que já não consegue tirar dos seus lábios. Definitivamente teria de inventar algo melhor.

Libertado do cheiro daquele corpo que dormia na cama que havia partilhado, a busca de um sentido que só pensava encontrar no prazer e o simples facto de se encontrar de joelhos, à procura de
uma peúga, com as mãos assentes no chão, oferecia à sua memória uma imagem ridícula, quando anos antes fizera amor com a ex-namorada do melhor amigo e não tivera tempo de tirar os sapatos.
Levanta a cabeça e bate na cama, bolas eram uns magníficos sapatos de vela e eu era um grandessíssimo beto. Cruzes… Encontra a peúga enrolada num soutien verde e recupera a razão.

Levantado, o olhar procura o espelho na ânsia de encontrar algo mais do que o corpo nu que vai encontrar. Parece-lhe menos exuberante, é de certeza, sente vergonha daquela barriga que com o
tempo parece apostar numa teima de agradar a força gravítica, e o tempo fala connosco assim. Um último olhar, as peúgas parecem agora uma réstia de dignidade perdida naquele corpo, ao mesmo
tempo ela começa a ressonar, pelo menos ele quer que comece, sabe que será apenas um segundo, mas procura-o com a paixão de quem sabe que jamais a voltará a achar atraente.

Mais uns passos perdidos, e os boxers achados num canto, solta um pequeno grito de prazer, algo parecido, ela mexe-se novamente e ele retrai-se. Outra vez a história do grito, que lhe não sai da cabeça. Com mais lucidez as calças são colocadas com um movimento rápido, como se existisse dignidade para recuperar naquele instante. A camisa está suja de batom, deixa escapar por entre os dentes, um rebentar de palavras que se afogam no silêncio, quatro ou cinco impropérios que rofere, na esperança de esconder o desagrado que encontrou.

Quando faz a última ronda para saber se a penúltima foi objectiva e bem sucedida, passa uma última vez em frente ao espelho, e por momentos encontra no reflexo um olhar que já não conhece, o corpo que se apressa a querer sair, tal como a vontade que tem de procurar um outro eu, os sapatos na mão dão o toque de ridículo que a situação merece, sorri e avança.

Quando a porta deixa ouvir o som da tranca que procura a posição de descanso, como se ela própria tivesse encontrado um rodopio de cansaço naquela noite, a culpa já a deixou no momento em que lhe pareceu ouvir um pequeno grito arrancado ao corpo que ficou, deitado, suado na cama. A sua respiração acelera, provoca em si uma solução de suor e álcool que se confundem na pele como dois reagentes, as faces vão-se tornando no tubo de ensaio e a mente não consegue encetar outra fuga. Um grito na noite e um turbilhão de imagens assaltam cada centímetro do seu corpo.

O vazio que o assalta, confunde-se com a falta de ar que costumava sentir, quando em criança se escondia daquele cheiro de insegurança que o procurava a cada novidade. Naquela noite confundira no mesmo aroma sexo e amor, amante e esposa, álcool e ego, tornara-se em si o único acto de prazer, cada segundo que elogiara cada pedaço do seu eu, valia pelo menos uma boa garrafa de Bourbon de segunda, encontrado nas prateleiras mais baixas do hipermercado da cidade.

Mais uma porta, a tranca teima em não se querer fazer ouvir, quando lhe parece que sair não á afinal tão diferente de entrar, sente as forças que parece querem torná-lo fraco, a decisão afinal é sua, sempre foi. Dá consigo encontrado no caminho que pretende inverter, pequenos sinais desenham o mapa que os seus sentidos lhe parecem querer desenhar, uma estranha forma de ter a certeza invade-lhe a mente com a força que não tem para fugir.

Um grito na noite e mais um amanhã, gasto numa hora de prazer, esgotada no suor do qual agora só recorda o odor. Os sentidos despertam, um a um voltam a ter poder sobre cada momento do seu eu, a porta finalmente dá de si. Já dera minutos antes quando fizera dela uma saída. Um regresso que jamais poderia desejar, senão pelo corpo que descansa na cama, a existência tornada energia, embriaga novamente cada segundo que se faz presença e o grito.

Um grito na noite, uma cama vazia, um odor que já não consegue descrever, uma revelação que não pode transformar em palavras. Quando o álcool se fizer, também ele recordação, um querer de
ressaca tentará esconder uma ausência de tudo e o grito já se foi. Cansado de se ter cansado, e a vontade de se procurar nos segundos em que se solta o prazer, tornam largos os minutos de solidão que é tudo o que encontra real. O grito na noite afinal é o seu, nunca foi o de mais ninguém.

Luís García  

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Narrado por Luís García el 29-10-2009 [3 Comentarios]
Categoría: Cuentos

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3 Comentarios

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  • 1.- Narrado por José Pérez Mayo el 31-10-2009

    É uma bela história; sim um poema em prosa bonita, digna de ombro a ombro com a melhor poesia de autoria Português. Parabéns!


  • 2.- Narrado por Llum el 4-11-2009

    M’agrada poder llegir d’altres idiomes!


  • 3.- Narrado por José Pérez. el 5-11-2009

    A mi también me agrada, Llum; pero otros idiomas, no otras lenguas sin distinción, ya que el catalán, por más lengua cooficial que sea, no pasa de ser un dialecto del provenzal.




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